segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

A ALDORA



A ALDORA
Encontrei-a hoje no Funchal, a Aldora, a minha Aldora. Abraçámo-nos efusivamente, seus olhos negros, sempre expressivos derramaram ternura, suas rugas que marcam uma longa vida, distenderam-se num sorriso jovem e gaiato.
Mas quem é esta boa amiga que me trás tantas e doces recordações da minha infância?
É natural do Monte, onde sempre viveu e vinha para a nossa casa, como empregada doméstica nos períodos de transição de criadas; estava sempre disponível para remediar uma situação de mudança de pessoal.
Eu, criança, à volta dos dez anos, ela com os seu vinte, dávamo-nos muito bem. Ao fim da tarde, muitas vezes, acabada a lida caseira, íamos para o quintal, se era tempo das canas de açúcar chupávamos gulosamente, pedaços e pedaços de cana, à velocidade de um engenho, escolhíamos especialmente a qualidade P O J que eram as mais doces e tenras. Fecho os olhos e sinto novamente o paladar e a frescura do suco das canas sacarinas.
Em dias de vento corríamos de braços abertos pelos longos passeios do quintal, éramos vento, respirávamos vento, soprávamos como vento abanando as árvores que pacientemente se deixavam desfolhar.
Mas, o que mais recordo da minha Aldora foi um grande acontecimento da sua vida: a sua nomeação para Mordoma da Festa do Monte. Tal nomeação dava estatuto mas também obrigações. Era de bom tom que as mordomas “tirassem” três vestidos novos: um para a véspera, outro para o dia da Festa e o terceiro para a segunda-feira seguinte, dia de fazer contas.
Claro que acompanhei de perto todos estes projectos. Era preciso fazer roupa nova, de dentro para fora. Aldora começou a preparar a roupa interior; para a combinação comprou um tecido cor de rosa choque, que nessa época era inaceitável, no qual foi bordando, nas horas livres,uma barra de “viuvinhas”.
Eu olhava extasiada com a rapidez com que as florinhas apareciam bordadas. Ela tinha uma bola de linhas de bordado Madeira de todas as cores possíveis e, estou a vê-la, puxava uma linha, à toa sem preocupação de cor ou tom, e a linha rapidamente já era viuvinha”.
Mas dos três vestidos o mais importante era aquele que seria usado no dia da Festa e da procissão. Esse foi confeccionado em seda “georgete” castanha e como complemento da toilete, chapéu de palha da mesma cor enfeitado com duas rosas cor-de-rosa.
Escolhidas as roupas iniciou-se a segunda fase: o momento exacto em que Aldora, em carro aberto, iria passar por debaixo da janela da casa onde viviam as suas futuras cunhadas, irmãs do José seu namorado, que viviam na nossa rua logo abaixo da quinta Sarmento, esse era o factor de maior relevo do que a Festa propriamente dita e era seu maior desejo causar às espectadoras sentimentos de inveja, assombro e admiração.
Alinhar à esquerda
Vivia também em Sª. Luzia um chauffeur de praça, o Galo Tonto, que era proprietário de um carro grande, próprio para passeios turísticos e que com a capota descida permitia aos passageiros verem bem e serem vistos, foi esse o carro escolhido.
Mas S. Pedro não gostou deste desejo que poderia levar almas cristãs ao pecado e na manhã do dia 14 de Agosto, em pleno verão mandou nevoeiro e chuviscos. Nestas condições atmosféricas nunca soube se o desejo, tão, tão desejado pela Aldora se concretizou e em que condições chegou à Igreja do Monte, no carro aberto do Galo Tonto!!!
Maria 80

segunda-feira, 7 de Setembro de 2009

Uma visita de pêsames


Acordei muito, muito cedo, os melros pretos ainda não tinham principiado as suas saudações e diálogos. O silêncio era tão profundo que os meus ouvidos nada tinham para escutar. Então vieram as recordações de outras manhãs distantes em que acordava com o ruído das carroças que transportavam legumes, frutas e outros produtos mais, para abastecimento da Praça do Chile . As mulheres da fava rica eram tão madrugadoras como os melros pretos do meu jardim. “Ó fava riiiiiiiiica”. E a pouco e pouco vinham surgindo os pregões da laranja “- olha a boa laranja ,laranja boa…” e o homem dos queijos “-ó queijo saloio…” o dos morangos “- são de Sintra…” e as peixeiras “-ó freguesa é para acabar, rabo , cabeça e posta…”!



Que saudades de toda aquela envolvência ao meu despertar na Alameda D. Afonso Henriques!!!
A nossa mudança de residência para a capital, foi uma grande e boa aventura. Cidades diferentes, diferentes os costumes. Nessa época 1949/50 para ir às compras à baixa lisboeta era de bom tom cuidar da toillete, as luvas e os chapéus contribuíam para dar uma nota chic, se assim não fosse, como entrar descontraidamente na Pastelaria Império nas Escadinhas de Sª Justa? E as estreias no cinema S. Jorge sempre com magnifico recital de órgão nos intervalos da exibição dos filmes?
O primeiro inverno que lá passámos foi difícil, havia a preocupação do “abafar”, quer para sair quer para estar em casa. Lembro-me perfeitamente das nossas toilletes caseiras, minha e da minha mãe, dessa tarde que estou a recordar; eu vestia saia de xadrez vermelho, preto e branco, camisola preta, colar vermelho. A minha mãe: saia de xadrez em vários tons de verde, pull-over verde bandeira, muito alheadas do falecimento de uma tia, que tinha ocorrido no Funchal e com quem tínhamos cortado relações. Assim quentinhas fazíamos crochet, pois o nosso dia-a-dia sofrera grandes alterações, longe estavam os cuidados com o jardim, tais como zelar pela nossa colecção de cravos preparar as sementeiras para encher de flores os canteiros na primavera, etc. na capital, como as nossas amigas lisboetas fazíamos crochet.
Casada de fresco transformei-me numa dona de casa eficiente, para os lanches havia sempre bolos e bolinhos e como a temperatura do inverno o exigia, substituímos o habitual chá por deliciosos licores.
Nessa tarde que agora estou a recordar, ocupadas com os nossos trabalhos manuais, fomos interrompida pela empregada que veio anunciar a chegada de duas senhoras, que nos aguardavam na sala. Óptimo! Fomos recebê-las com alegria, as amigas são sempre bem-vindas!
Ao vermos as visitantes, os nossos corações caíram ao chão, felizmente sem ruído. Era uma visita de pêsames !!!!! Duas amigas da minha mãe, protocolarmente vestidas para a ocasião, luto rigoroso nos trajes, nos adereços e nas expressões. A mais velha, vestia com elegância e usava um lindo chapéu preto, coberto com um véu salpicado de bolinhas pretas de veludo que ajudavam a esconder seus olhos terrivelmente extrábicos. A irmã vestia tailleur de alta costura, posso jurar, que era complementado por chapéu com voltas e laçadas de fita de cetim negro, como negros os melros que habitualmente saltitavam nas árvores do meu jardim.
“Embrulhamos” instintivamente a nossa jovialidade, mas nossas roupas parenteavam que nem um pouco estávamos a sentir mágoa pela falecida.
Entre amigas, um passado de bom convívio e companheirismo superou a nossa desintegração e falta de solidariedade para um acontecimento que deveria ter sido sentido com mágoa. “Senti-me nua na praça”.
À saída, depois de uma despedida cordial, logo que o elevador desapareceu, olhei para a minha mãe, descoroçoada com tanta inconveniência e disse – óh mãe, e agora!!!
A mãe, tomou o meu braço e calmamente respondeu-me – Agora vamos beber o nosso licorzinho!
Maria80

quinta-feira, 13 de Agosto de 2009


AGOSTO 2009

VERÃO, QUERIDO VERÃO não te vás embora ,,,

terça-feira, 9 de Junho de 2009

Sonhos - para as minhas netas


Ás minhas netas


SONHOS


Consultando qualquer dicionário, podemos concluir que “os sonhos são conjuntos de imagens que se nos apresentam durante o sono”. A sua explicação tem sido, de uma maneira geral, pouco concreta. Há uma canção, aliás muito conhecida que diz “ o sonho comanda a vida” e alguns dos meus sonhos de criança, jovem, mulher fazem-me pensar que na verdade foram comandados pela vida.
Que pensam disto, minhas queridas netas? A quem passo a contar alguns sonhos que me impressionaram tanto que jamais os esqueci.
- Rodeada de algodão, farrapos de nuvens envolvem-me e permitem-me, apenas com ligeiros movimentos dos meus braços de criança, voar com toda a facilidade. É tão bom subir, subir, espreitar as aves nos ninhos, dialogar com os pássaros. Lá do alto, as flores parecem tão minúsculas como aquelas que brotam das plantas silvestres, à beira dos caminhos. Que bom deixar-me levar pela brisa e que fácil é deslizar no espaço. Vislumbro a minha Quinta rodeada de árvores e, em pleno jardim vejo um lindo carro vermelho, a pedais, há muito por mim tão desejado, apresso-me a descer para nele dar um passeio. Caio da cama abaixo, já não sei voar, já não tenho carro vermelho!!! (sonho de criança).
- Danço com tanta leveza embriagada pela música, as valsas sucedem-se, como rodopio! O meu par não tem rosto, não sinto seus braços à volta da minha cintura, só um cheiro a mar prova a sua existência . Dançámos com frenesim de quem quer beber todos os momentos, sem nada derramar. A sirene de um navio toca ao longe, chamando todos os seus oficiais, o meu par escapa-se tão rápidamente que nem há despedida. Corro no seu encalço, segurando a saia do meu longo vestido de baile… acordo, olho para a minha mão e vejo-me agarrada à barra do lençol (sonho de jovem).
- Acarinho tuas mãos enrugadas, afago teu rosto marcado pelos anos, estendo os braços, quero apertar teu corpo franzino. Mãe…que bom estarmos juntas novamente. Aperto-te tanto, tanto, tanto, mas acordo de braços vazios (sonho de filha).
- Estou escondida, enrodilhada, na casca de um caracol, nem tenho espaço para tremer de medo de ser esmagada por um impiedoso, grosseiro, vulgar, reles sapato. (pesadelo).
- Corredores brancos, brancas as figuras de cabeça rapada que me rodeiam e olham inexpressivamente como se anormal fosse ter cabelo. Quero fugir deste sonho agitado mas os meus pés estão colados ao chão e a multidão de calvos aperta-me, oprime-me acorda-me; estendo o braço para o meu doente e afago seus cabelos prateados que não chegaram a cair? (sonho de esposa) .
- Porque choras? Quero entrar na tua tristeza. Com carinho te abraço e teus soluços vão fugindo assustados com a minha ternura. Assim abraçadas formamos um todo que se completa e está feliz. Nossa amizade renasce, sinto-a através dos poros e está tão presente que abro os olhos a recordar nosso passado alegre, por vezes triste mas sempre amigo (sonho de irmã). Levanto-me confortada com este sonho tão real, por acaso abro uma gaveta da minha cómoda e….. olho estarrecida para um papel, onde está escrita por tua mão tua assinatura completa. Esfrego os olhos, lavo o rosto com água fria, leio o releio o teu nome. Nunca, jamais compreenderei este mistério (sonho de irmã)
Reflictam nestas historietas, minhas netas queridas e escrevam vocês também algum sonho bizarro ou qualquer experiência que tenham vivido, assim, a pouco e pouco irão adquirir o prazer da escrita, nem que seja nos oitentas, pois como disse Jean Paul Sartre “é sempre tempo de segurar o tempo pelo rabo”.

Avó Tété

quarta-feira, 29 de Abril de 2009



A Caligrafia


O 25 de Abril modificou a vida de muitas pessoas. Eu, por exemplo, trabalhava na hotelaria, mas vi-me obrigada a mudar de profissão. Fui procurar um velho diploma, que anos e anos rolara nas minhas gavetas e graças às minhas habilitações do Curso Comercial da antiga Escola Comercial e Industria António Augusto de Aguiar do Funchal, candidatei-me para o 12º grupo C Grafias que leccionava as disciplinas de Caligrafia, Dactilografia, Estenografia e Práticas de Secretariado. Como era principiante na profissão foi-me atribuído um horário de Caligrafia. Foi uma boa experiência.


O Alfabeto


Ensinar Caligrafia é geralmente monótono, mas foi um meio de angariar $$$ escudos, eu gostei! São lindos os traços, ora subindo ora descendo, como a vida nas suas vertentes.
O elegante A lembra amor, altruísmo. O F fascina-me, JJJ juntos, enfileirados, jovens que nos olham com vontade de aprender, meio de lhes dar outra perspectiva do Mundo e da Vida, ajudá-los a abrir novos caminhos, saber ser, além de conhecer, saber estar, como vestir, conhecer indispensáveis regras de etiqueta, servir com graça um café, enfim, preparar-se dum modo especial para a profissão de Secretária no vasto sentido da palavra.
Os Bês, traços finos para o alto, grossos na descida, lembram bêbado quando cai esparramado à beira dum muro, pode cair, pode morrer, se morre a urbe fica mais bela.
O I=& comercial é atento, cumprimentador, ligado ao O, tão castiço e ao G rico em curvas que lhe dão beleza, fazem-nos ler:


Obrigado,
Graça Gouveia


As letras ele há-as belas, as do alfabeto que nos permitem traduzir estados de alma, beleza, mas os eLes também podem ser falsos, podem traduzir lascívia, um olhar sujando uma bela manhã que devia ser limpa. As letras de câmbio são traiçoeiras, derrotam, matam, juntas podem perfazer metros e metros que conduzem à ruína. Eles leva-as o vento, para que um raio as parta.
Os algarismos são díspares, o 24 a recordar dia de casamento, o 25 que todos festejam, mas para alguns sinónimo de perda, prejuízo.
Os eNes, nuvens, afoguem as horas tristes e os eMes de maternidade, de irmã, venham iluminar a minha mente.
As minhas preferidas são os eFes tão deslizantes, arrematados por um laço lembram felicidade, mas o D é a minha predilecta, acrescento-lhe um discreto E, remato com um Us e aparece-me

DEUS
“Que faz da eternidade um só dia feliz” (in Liturgia das Horas)

MARIA80

domingo, 12 de Abril de 2009


PÁSCOA 2009

ALELUIA ALELUIA
O SENHOR RESSUSCITOU
Votos de Feliz Páscoa a todos os meus amigos, com um grande abraço da
MARIA80

sexta-feira, 10 de Abril de 2009

O meu crucifixo Sexta Feira Santa



O MEU CRUCIFIXO
É a luz que me ilumina
O sol que me aquece
A doçura que me embriaga
O alimento que me dá força
A fortaleza onde repouso
O oceano onde mergulho
A beleza que me encanta.
EDITORIAL FRANCISCANA

terça-feira, 7 de Abril de 2009

Senhor Cardoso


O SR. CARDOSO
Como poderei esquecer o Sr. Cardoso! Homem que infernizou a minha infância com seus tratamentos, prescrições e doutos conselhos quanto à saúde.
Actualmente seria dietista, homeopata, osteopata, reflexologista e muito mais, mas no seu tempo era apenas o Sr. Cardoso – o massagista.
Tinha o seu ginásio na Rua do Bispo; estou a vê-lo louro, olhos azuis, braços musculosos cobertos de fartos pelos dourados que lembravam uma ceara madura.
Os seus pacientes tinham os mais variados padecimentos como variados eram os seus conhecimentos: um rapazinho muito débil, que quase nem voz tinha, após o devido tratamento cresceu, fortaleceu e no seu devido tempo…multiplicou-se; uma esposa que não gerava filhos…engravidou e deu à luz uma Joaninha, graças aos conhecimentos do Sr. Cardoso. Mais tarde, essa bebé, já mulherzinha, encantou os amantes de música erudita com sua voz melodiosa.
Minha irmã era uma magrizela, macilenta, as pernas rivalizavam com as da Olívia Palito; eu, baixinha entroncada, dizia-se em casa que saía à tia Filomena, que era muito “grossa”. Com exercícios físicos alimentação natural (que desgraça) crescemos normalmente e livrámo-nos duma “fraqueza” que era o receio e obsessão da nossa mãe. Mas principiou o tormento!
-Sopas cozinhadas à última hora, de agrião, beterraba ou couve, nabo e cenoura, tudo isto quase cru, para não se perderem as vitaminas.
- Banhos de mar a partir das 8 horas da manhã, cronometrados, exposição ao sol proibida, pois os excessos levavam muitos jovens ao sanatório. A minha mãe “bebia” estas sugestões e não cedia um milímetro. Assim as idas ao Lido faziam-se na frescura da manhã; por volta do meio -dia, quando regressávamos tristemente a casa, encontrávamos as amigas chegando radiantes com a perspectiva de um dia cheio de sol. Que raiva!!!
Depois do almoço era também obrigatório fazer repouso; vejo-me deitada no sofá, bem pertinho do relógio da avó, que ia marcando arrastadamente os minutos da meia hora que nos era exigido descansar.
- Constipações: meia chávena de sumo de cebola, em jejum.
-Gripes: água de pêro e cebola com sumo de limão, que deveria ser bebida de copo em copo ao longo do dia. À noite, para aliviar as dores do corpo, massagens com rodelas de limão quentes. Era de arrasar!
Mas agora, que sou octogenária, penso no Sr. Cardoso. Quem sabe se ele não corrigiria um dedo do meu pé, que teima em curvar-se servilmente ao meu sapato de marca o que me tira o prazer de passear na minha bela cidade?!

MARIA80

Parabens !!!



Parabéns Maria80!!!


Tomei a liberdade de entrar no blogue da minha avó para dizer que ela hoje faz 82 anos, ou seja já anda na net à 2!!!!


Muitas felicidades e muitos mais anos de vida!!!!!
Beijinhos da Carolina

segunda-feira, 16 de Março de 2009

O VAPOR - RIBEIRA DE ST. LUZIA

O “VAPOR”

Nasci mulher e fui projectada para a luz pelas entranhas da terra, qual bebé escorregadio a sair do ventre materno; meu caudal é enriquecido por algumas pequenas levadas que se juntam a mim e, assim acompanhada, corro ao eterno encontro com o mar. Chamo-me Luzia porque banho a encosta da igreja do mesmo nome.O tempo não me marca distingo-o pela chuva, pela cor, pelo sol. Ao meu redor, aqui os verdes tenros das ervas singelas entram em rivalidade com o verde prateado das folhas dos eucaliptos ali, e com os verdes sisudos de uma nespereira que espontaneamente nasceu além, aproveitando um pouco de terra entre as pedras do meu leito. Não posso deter-me a apreciar a sua beleza pois o mar espera-me sempre com ansiedade.A minha água canta a saltar de pedra em pedra respingando gotas que são logo devoradas pelo sol. Aqui, uma pedra grande obriga-me a desviar, ali um pequenino promontório obriga-me a fazer cintura na minha descida, além grandes pedras que outrora as lavadeiras cobriam de roupa para secar. Aqui, uma aboboreira atrevida espreguiça-se com volúpia oferecendo descaradamente as suas flores amarelas hoje, aboborinhas amanhã, ali os gatinhos de uma ninhada brincam felizes sem desconfiarem do caudal do inverno que os irá tragar, além tufos de chapéus de feiticeira balouçam-se descontraidamente, embalados pelo vento.O meu deslizar constante aproxima-me da Ponte do Torreão e aí meu líquido coração liquefaz-se ainda mais cheio de saudades do “Vapor” e seus habitantes. Margem da ribeira? O seu corredor estreito, a cor vermelha com que foi pintado, dava-lhe o aspecto de casco de navio e, fosse por essa razão ou pelo seu formato esguio, certo é que todos lhe chamavam “Vapor”.Como recheio, um catre de ferro coberto com um colchão de palha aos mazarulhos (*) tão amarelecido e manchado pela humidade que nem o Trabalho desejaria ali descansar Um lava-Quem terá construído aquela casa de madeira, habitação de lavadeiras, escorada de margem amãos também de ferro, coxo com um velho espelho dependurado por um arame. Espaço, muito espaço para as banheiras que ao fim da tarde, seriam aí guardadas com a roupa lavada que o sol alpardinho (*) não tivera força para secar.Por baixo do”Vapor”havia no verão uma pequena represa feita na ribeira com os calhaus do leito cimentados a barro onde se empossava a água. Era a alegria da rapaziada, naquela água turva de sabão, escoada das lavagens ,nadavam, faziam pesca de eirós e até regatas de celhas, sentados ao fundo delas com os pés cruzados, servindo-se das mãos bem espalmadas para remar. Se acaso abalroavam, não havia perigo pois nadavam como peixes.Oh, “Vapor”, “Vapor”, porque não desceste até o mar para balouçares sobre as ondas?Porque te deixaste destruir pelas enxurradas?Molhada em lágrimas de saudade dos seus pequeninos companheiros, Luzia só deseja se abraçada pelo amigo que eternamente fiel a aguarda e, já nem olha para os alegres girassóis aqui, para os fetos além; corre, corre apressadamente, as cores quentes das buganvílias excitam-na e agora só deseja entregar-se loucamente ao mar.

Maria80

(*) - Vocabulário Popular Madeirense, Padre Fernando Augusto da Silva, edição da Junta Geral do Funchal, 1950.Fonte: Sarmento, Alberto Artur, in suplemento ao nº 4900 de O Jornal das Artes e Ciências e da História da Madeira, Funchal, 7 de Novembro de 1948.

segunda-feira, 2 de Março de 2009

PROVÉRBIOS - SABEDORIA POPULAR



Hita é uma amiga espontânea, alegre, boa companheira; viaja muito, interessa-se pelas realidades do mundo por onde vai passando, sempre atenta à natureza humana que a rodeia. Mas dentro de si tem um mundo muito estranho que lhe permite falar com o “além desvendar mistérios. É para Hita muito natural perguntar a uma amiga com quem está a dialogar – olha o teu pai (já falecido) está aqui a teu lado, queres vê-lo? Não, responde-lhe a amiga horrorizada.
Viúva, na sua sala elegantemente bizarra, pousa sobre a prateleira da chaminé, um lindo cofre, contendo as cinzas do seu marido, que fora cremado.
Fim do ano 2002, após o feérico espectáculo na baía do Funchal a família brinda ao bebé 2003 que acabara de nascer. Toca o telemóvel é Hita a desejar felicidades à sua amiga madeirense e diz-lhe eufórica – estou a brindar à tua saúde, champanhe com com cinzas do meu marido!!!
“O 1º copo para a saúde
O 2º para a alegria
O 3º para a felicidade
O 4º para a loucura” Provérbio da Bulgária
A fechar estas estórias deixo um repto, baseado também na sabedoria popular – escrevam, minhas amigas, escrevam porque:
“FERRO QUE NÃO SE USA GASTA-O A FERRUGEM”
“QUEM NÃO ARRISCA NÃO PETISCA”

domingo, 1 de Março de 2009

PROVÉRBIOS (continuação)



HISTÓRIAS VERÍDICAS
(continuação)
Manuela e Ramon, mãe velha e filho esquizofrénico, viviam pobremente numa casa a desfazer-se. No inverno os tectos descascavam-se mais e mais, dando passagem à chuva que se infiltrava por todo o lado. No verão era uma apoteose de pulgas e baratas que alegremente circulavam entre as poeiras e o lixo. No mísero quarto de dormir uma dúzia de relógios martelavam o tempo para o apressar.
Última desgraça para coroar uma vida cruel: entupiu-se a sanita, que durante anos e anos, fazia esforços para cumprir a sua missão
Como resolver este grande e inadiável problema? Fácil! Mãe e filho foram comprando grandes bidões de plástico, que dia a dia iam enchendo com as fezes, bidões esses que eram guardados metódicamente na cave. Quando o cheiro insuportável, subiu, subiu, até às casas vizinhas , foi pedida uma vistoria camarária, que encontrou, enfileirados, nada mais nada menos que 137 recipientes cheios de perfumado conteúdo.
“QUEM NÃO POUPA NEM HERDA SÓ TEM UMA POUCA DE M…”

quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

PROVÉRBIOS - SABEDORIA POPULAR



Era uma casa solarenga, de província; em baixo guardavam-se as alfaias agrícolas, uma escadaria de pedra, coberta de vinha virgem conduzia os visitantes a um hall de entrada. Um grande salão. À direita, um grande salão escondia-se por detrás duma porta sempre encerrada, as janelas com cortinados espessos, pesados, não deixavam entrar o sol. O cheiro a bafio só era “comido” pelo ar e pela luz em datas solenes.

Um corredor branco dava lugar a brancos quartos de dormir e outros cómodos, mobilados com solene simplicidade. Nesta casa o tempo escorregava devagarinho, horas iguais a horas, dias ligados a dias, meses iguais a meses formando colares de anos. Neste respeitável mundo, onde o bom humor não tinha lugar, vivia António Nunes com a família. Seu casamento foi de amor calmo e sereno. A perda de uma filha jovem, de cabelos louros, dos quais o pai guardou como recordação uma pequena trança. Foi um revés na sua metódica vida.

Os anos escoaram-se, sua esposa, quando chegou a hora, partiu também para a eternidade, ficando para António, como lembrança muito querida a prótese completa da sua saudosa mulher, recomendando repetidamente que jamais se separaria de suas doces recordações.

Alguns anos depois, quando António partiu para a sua grande viagem, no grande salão onde o cheiro do mofo fora absorvido pelo das velas ardentes, o filho mais velho, com toda a religiosidade que o evento merecia, guardou no bolso do fato de seu defunto pai a prótese de numerosos dentes de sua falecida esposa e a trança loura já esmaecida de sua querida filha.
“CADA UM ENTERRA O PAI COMO PODE”

sábado, 7 de Fevereiro de 2009

Provérbios - Linguagem Popular


Estórias verídicas
Júlia e Branca, duas irmãs septuagenárias, para as quais os anos, a reflexão, a vivência deram uma serenidade e paz, que transpareciam nos seus diálogos, através de provérbios que oportunamente citavam.
As tardes, acabadas as lides domésticas, eram passadas na varanda de sua casa, onde podiam apreciar a paisagem e os transeuntes que subiam e desciam a rua.
Os seus diálogos, perdidos no tempo, poderiam ter sido assim:
- Saimos juntas esta manhã e o trabalho da empregada não rendeu nada: “Patrão fora dia santo na loja”.-A mana já viu os estragos que a máquina de lavar causou no “richelieu da toalha de chá de linho? – Eu bem recomendei que fosse lavada à mão “Quem avisa meu amigo é”.- Vai se moroso arranjá-la, mas “conserta o teu pano que durará até o ano”.-
Que tarde tão agradável, cheia de sol, nem parece que estamos em Janeiro! –“ Com bom sol se estenderá o caracol”, mas “água em Janeiro vale muito dinheiro”. – Repare Branca, naquela viúva que ali está a passar, não a conhece? Foi uma que apesar de madura casou com um rico proprietário. Sim! “ há sempre um chinelo velho para um pé doente”.- Mas ele morreu um mês após o casamento, coitado! Mas”velho enamorado, cedo enterrado” – Consta que ela ficou bem de poses, ah, “lágrimas com pão passageiras são”. – Mana , repare naquele homem que ali está a descer, de calça branca, quem será? – Não sei,” mas calça branca em Janeiro em Janeiro é sinal de pouco dinheiro”
- Júlia, sente-se melhor do seu reumático? – Estou na mesma, “a doença vem a cavalo e vai a pé”.-Tenha paciência, vai melhorar pouco a pouco. – “Bem fala o são ao doente”. –Olhe um arco íris, temos que ir para dentro porque “ arco íris na serra, chuva na terra”…

segunda-feira, 15 de Dezembro de 2008

NATAL 2008


NATAL 2008
O Advento coloca cada um de nós cristãos na expectativa da chegada do Senhor. Faz-nos viver um tempo de profunda reflexão e transformação de vida, em virtude do Senhor que vem. Ele veio, Ele vem , Ele virá. Veio na Encarnação. Celebramos isto no Natal. Maria 80 deseja a todos os amigos cibernautas BOAS FESTAS.

terça-feira, 9 de Dezembro de 2008

AS MINHAS LEITURAS


AS MINHAS LEITURAS
Vejo-me sentada num maple castanho, no escritório do meu pai, com um livro sobre os joelhos – ainda não sabia ler – mas o desejo era tanto, que folheando e apreciando as ilustrações, eu, embevecida inventava a sua leitura.
Agora, vejo-me em passo largo a aprender a ler com a minha avó, na Cartilha João de Deus. Depois foi um salto para iniciar as leituras infantis: “ Os desastres de Sofia”, que muito me afligiram por causa do banho quente dado à boneca de cera, “As meninas exemplares” também da Condessa de Ségur…mas aquelas que mais ficaram gravadas na minha memória, foram algumas da autoria de Monteiro Lobato, deste destaco: “A história do mundo para as crianças” “A geografia de D. Benta” “Aritmética da Emília”, D. Quixote de la Mancha para as crianças” de que guardo, particularmente, o modo como o Sancho Pança comia – nacos e nacos de carne desapareciam no canudo das goelas…”. Claro, D. Benta, Narizinho, Pedrinho, o visconde e a Emília viveram também comigo.

Já adolescente, os livros de Philips Openheim tornaram-se-me inesquecíveis. Decorriam na alta sociedade londrina, algum tempo antes de eclodir a 2ª guerra mundial. As personagens, espiões de alto nível, tinham entre si um relacionamento moderno, descontraído, de flirt de amor subtil, que me deliciavam mais do que as aterradoras expectativas de guerra.

Mulherzinha, com Max du Veuzit e M. Delly, passei a viver em ambientes diversos: palacetes, quintas, encarnava-me em donzelas ingénuas, puras, que se apaixonavam “à la folie” por belos fidalgos, orgulhosos, taciturnos, inatingíveis. De M. Delly, recordo um jovem de nome Arpad, que era tão deprimido, que os jardineiros, todas as manhãs, percorriam os jardins do palacete, para apanharem as florinhas das planta silvestres que no seu modesto colorida, entristeciam ainda mais o jovem proprietário.
E com estas leituras tolas mas para mim encantadoras, talhei o meu perfil ideal – queria um homem bonito, melancólico e muito romântico – e encontrei! Mas Max du Veuzit nunca descreveu o percurso desses amores na estrada da Vida a dois, esqueceu de assinalar as célebres frases proferidas no acto nupcial…prometo-te amar, honrar e obedecer na saúde, na doença, na riqueza, na pobreza na alegria e na tristeza… jamais se referiu ao que eu chamarei de CAMINHO, com as suas voltas, curvas, subidas, descidas e tombos também. Cheia de sonhos, enquanto bordava o meu enxoval, tirava sempre tempo para a leitura. Alexandre Dumas: “Os três mosqueteiros” “O Visconde de Bragellone” “O colar da Rainha”… Como desejei empurrar o Cardeal Mazarino e a bela Milady com a sua rosa tatuada nas costas, pelo inferno adentro! Inesquecível também, o banho do velho Thibault numa tentativa de lhe salvar a vida, e onde é descrito com grande realidade o seu velho corpo já decrépito.
Agora, mulher amadurecida, trilhando um caminho sem flores, monótono, triste, os livros foram o meu cajado. Devorava-os: os nossos clássicos, “A prima Raquel”, com os seus chás medicinais, “Rebeca” “O Arco do Triunfo” “A Pomba” “Mr Sommer”, “O jardim de Alla” e muitos outros me ajudaram a e evitaram que me sentasse numa curva do meu árduo caminho.
Mas não há mal que sempre dure, e vem o tempo em que lia para apreciar e não para entorpecer. As idas para férias para o Porto Moniz são imemoráveis. Verões e verões com os amigos SOL, MAR e LIVROS. No WW atulhado de malas, sacos e mantimentos Eça de Queiroz tinha lugar cativo. Margaret Mitchel (E tudo o vento levou), Franz Werfel ( A canção de Bernardete) e mais outros preferidos, já lá estavam à minha espera. E a propósito do Eça, estava eu, uma tarde, comodamente recostada, no meu balcãozinho donde se desfrutava uma bela vista do mar – entra na minha cozinha um gato esfomeado e comeu a carne que estava para ser guisada, para o jantar! Claro! Quem pagou foi o Eça
Mas, agora, recordando algumas das minhas leituras, reconheço que Max du Veuzit inculcou em mim uma hiper-sensibilidade que me levou à leitura dos Salmos de David (Desperta Senhor, porque dormes? Desperta e não me rejeites mais para sempre…) pois deste modo, sentia-me em união com a minha mãe que se entristecia muito com a minha ausência. E mais, como me empolgava quando a mãe, quase no fim da vida ainda recitava Cyrano de Bergerac falando à Roxane sobre a ternura dum beijo:..( un point rose qu’on met sur l’i du verbe aimer; c’est un secret qui prend la bouche pour oreille;un instant d’infini qui fait un bruit d’abeille;une comunion ayant un gôut de fleur…).
Hoje, reformada, livre, livre de trabalhos, cuidados, deveres, só faço o que me dá prazer…ler, é claro, é uma das principais opções.Ler, conhecer novos escritores que eu ignorava por completo. Apaixonar-me por Peixoto (…durante meses não sobreviver. Depois, muito devagar, como um vício que se recupera, fui encontrando pedaços de mim…) E Alexandre o’Neil (… um hoje que nunca é hoje, um amanhã que já é ontem…) Kalil Gibran (…quem me dera que pudesseis viver do perfume da terra e sustentar-vos como as plantas apenas de luz…).
E tenho ainda muitos outros à minha espera!
Que Max du Veuzit não sinta ciúmes.

Teresa

A casa da minha amiga Paz


SANTO DA SERRA
A CASA DA MINHA AMIGA PAZ

Quero falar da minha amiga Paz, com quem convivo quase diariamente, com paciência ouve-me, compreende-me, acompanha-me. Por vezes afasta-se, mas volta sempre, cada vez mais amiga, mais transparente.

Só agora me convidou a ir a sua casa, lá no alto, no meio das montanhas. Preparo-me para a visitar, mas primeiro acomodo a Inquietação, muito confortavelmente, não vá ela fazer-me a partida de lá ir ter comigo. Levo o Riso pois sei que a Paz vai gostar da sua presença.

Após um percurso ziguezagueado, vejo-me em plena serra , com aquele perfume que lhe é peculiar de folha abandonadas, feiteiras, pinheiros, velhos troncos que a humidade persistente apodreceu. À minha frente um semicírculo de árvores, que, como um biombo verde dá intimidade a tanta grandeza.

A Paz chama-nos lá do alto e subitamente encontramo-nos na sua casinha, tão confortável, coberta de agulhas carinhosas, como um grande ninho feito de amor . O Riso debruça-se logo para se divertir com os coelhos fugidios, os pássaros que casualmente passam sobrevoando o arvoredo. O Ar é puro e leve, lava-nos os pensamentos, arrasta-os consigo. A Paz ensina-me a viver no seu mundo: ouvir o silêncio, entregar-se ao balanço do vento, olhar o mar distante, esquecer tudo o que poderia causar perturbação. Não trocamos palavras, de mãos dadas, deixamo-nos embriagar pela paisagem que nos rodeia e que vista lá do alto é tão ela e cheia de luminosidade.

Sob os telhados escorregadios adivinham-se s pessoas ocupadas nas lides do dia a dia. Sorrimos com cumplicidade, porque na verdade somos seres privilegiados, sem compromissos, sem obrigações.

Mas alguém nos chama lá de baixo, espreitamos curiosas, é o Apetite – desçam, uma Abelhinha diligente preparou-vos uns petiscos deliciosos -. Descemos para saborear a merenda.

O tempo vai-se afastando e quase sem darmos conta da sua fuga, já o Sol ns pisca o olho, fazendo sinal que quer dormir.

Despeço-me da minha anfitriã, da Paz e do Riso, acompanha-me a Saudade, para recordarmos juntas um dia feliz.

O Nevoeiro cerimonioso vem apresentar-nos os seus cumprimentos de despedida;
Adeus
Nevoeiro amigo
Adeus

Maria80

uma visita

Harry Potter visitou-me enchendo a minha casa com o seu mundo de fantasia.

Bicadas sucessivas na minha cabeça acordaram-me de um sono profundo, três corujas com seus sábios olhares chamaram-me veementemente:

- Acorda, acorda, este hábito que os muggles têm de dormir fá-los perder momentos de magia.

Inexplicavelmente vejo-me junto da vitrine dos meus sapatinhos,


Uma bruxa desdentada, com a ajuda da sua vassoura, abriu-me as portas de par em par, barreira que me separava dos meus amiguinhos. Harry com a sua varinha mágica dá-lhes vida; seres liliputianos calçam os sapatinhos à sua época e imagem.

Entusiasmados e eufóricos, vieram todos ao meu encontro num desejo de quebrar o silêncio que há vários anos os aprisionava.

Os anjos de Sévres, arrastando sua grinalda juntaram-se ao anjinho solitário e sobrevoaram-me alegres com sua liberdade.

Validoso por ter sido o primeiro da colecção, o sapato verde recorda a minha ida ao sótão onde o encontrei dentro de um velho baú.

Uh, uh, acenava-me o tinteiro pondo de lado a tristeza da sua inutilidade.

O gato feliz nem se esforçava para apanhar o rato.

O paliteiro correu para cima da mesa de jantar para ocupar o seu posto.

O mensageiro do amor veio até mim a fim de eu poder ler o recado apaixonado que transmite.

Damas gentis tudo pisavam com seus sapatinhos de salto.

As botas, cheias de botões faziam inveja à Juliana do primo Basílio, que certamente as iria exibir em algum jardim público.

- Vim da Índia!

- Sou um Cowboy!

- Vim de Israel!

O meu avôzinho, com sua bota de elástico aproximou-se da caixinha de café para cheirar uma pitada.

Os artesanais sentiam-se discriminados, mas a figurinha do Tosco, realçou perante todos a arte dos barristas que os moldaram.

Aproveitando a confusão o vagabundo de Paris põe-se a recolher esmola, um hábito que anos de inércia não fizeram esquecer.

Procuro Harry para lhe agradecer tanta magia – Só tu querido feiticeiro, poderias por a comunicar tantos seres, oriundos dos mais variados pontos do globo. Ele olhou-me com amizade e, ajustando seus óculos, enrola-se em sua capa e prepara-se para fugir acompanhado por seu amigo Hagrid.

Antes que se acabasse a fantasia aproxima-se de mim o charutinho:

- Lembras-te de mim? Fui comprado numa tabacaria por um parzinho de namorados!

- Jamais te esquecerei, respondi pegando-lhe com muito carinho!

RECEITA DE XAROPE PARA TOSSES PERNICIOSAS



1ª Parte – O Jardim da avó

O arco iris desceu ao jardim, suas cores variadas reflectiam-se na multiplicidade das flores. Os vermelhos eram representados em degradé, nas perfumadas carochas cor de vinho escuro, nos pinceis menos negros, nas rosas vermelhas, nas eufórbias garridas, nos gerânios, nas camélias e no tom pálido das roseiras espinhosas, cor de rosa, cujo cheiro intenso era aproveitado para perfumar as travessas de arroz doce.
As violetas receosas, os lilases atrevidos que trepavam ao balcão, os lírios, as francílias, as sobrálias, todas elas davam ao jardim vários cambiantes de cor roxa. Os amarelos saltitavam aqui e ali, nas aleluias, na roseira, trepando escada fora, na aromeira com seus fofos pompons que se arrumavam amigávelmente nos ramos da frágil árvorezinha.
Todas, todas as flores eram abraçadas pelos verdes buchos que em forma geométrica limitavam os canteiros. Uma fila de brincos de princesa dava a forma de quadrilátero a toda a área em flor.
Era um jardim para passear e não para estar, como nos verdes relvados à inglesa, jardim para admirar a beleza das espécies, para se deixar envolver pelos perfumes, de um modo especial o da pequena magnólia que não se deixava esquecer; enfim, um jardim onde as visitas, antes de entrarem para a sala, podiam usufruir da sua beleza, cor e odores.
Era assim o jardim da Avó…..

2ª Parte – A receita

- duas mãos de agrião
- 1 quilo de açucar mascavado
- 45 caracois, dos grandes, raiados

Põem-se os ingredientes às camadas num tacho de barro herméticamente
Fechado e vai ao forno durante uma hora. Terminado o tempo de cozedura, o
Liquido é coado e junta-se-lhe depois um frasco de mel de abelhas.

Tomar uma colher de chá, várias vezes ao dia.

Esta receita, no tempo em que a tuberculose era um espectro, constituia uma
arma eficaz para combater tosses teimosas que poderiam ter mau desfecho.
E, para comprovar a sua eficácia aqui estou eu com 81 anos de idade, a quem
o bacilo de Koch nunca teve o prazer de me afectar.
Mas para cozinhar esta mezinha, havia falta de uma matéria prima – os
caracois. Era destacada uma criada para os poios de bananeiras da vizi-
nhança pois os animaizinhos tinham de ser grandes e raiados de amarelo.
Para controlar este problema a Mãe pensou, pensou no modo de poder
abastecer-se deste precioso ingrediente, assim, seguindo esta linha de
pensamento, resolveu instalar no jardim da Avó várias famílias de caracois
que se multiplicaram, alimentadas pelas plantas tão viçosas, sempre frescas,
regadinhas diáriamente com a água do pocinho em ogiva, caiado de vermelho.
Eu não apanhei tuberculose, mas a Avó ficou muito triste com os pequeninos
Moradores do seu jardim!!!

Festa nossa Senhora do Carmo




“Ó Maria!, Vós sois aquele jardim fechado
no qual se encerra o dador da vida!
Em Vós se encontra o próprio Deus,
O Céu e as criaturas.
É pelo próprio sangue de vós recebido
Que todo o mundo foi salvo.
Se não fôsseis vós, ó Maria
Para mim não haveria paraíso,
Eu não encontraria Deus”

S .Maria Madalena de Pazzi
(1566 - 1607

Uma Tarde Lisboeta




Quando vivia em Lisboa, recebi, duma amiga, convite para assistir a uma passagem de modelos de uma modista de alta costura, Mme Lopez.
A moda da Primavera desse ano, cinquenta e tal, era revolucionária, as linhas justas deram lugar às soltas que deixavam adivinhar o belo ou o roliço corpo que cobriam.
Houve troca de telefonemas, pois apesar da estação, desencadeou-se nessa tarde um temporal impiedoso…era aconselhável levarmos as nossas peles, portanto, sobre o meu vestido “inteiro” última moda, navegava um medalhão antigo num longo cordão de ouro a apontar-me o umbigo. O meu “petit-gris” dava macieza ao trage. Podre de chic!
Da minha amiga só recordo uma bela estola de vison e um chapelinho maroto cujo véu sombreava uns lindos olhos verdes disfarçando, assim, o seu ar campestre. O seu novo velho marido obsequioso, escorregadio, conduzia um opulento carro.
O salão de chá do Hotel Embaixador estava snobíssimamente repleto, cada mesa ocultava uma história; o som da música era envolvente.
Eu não era uma provável compradora, por isso “atirei-me” a observar pessoas, toilletes, adivinhar sentimentos; a orquestra tocava, tocava, seus sons ajudavam o meu devaneio.
Ao nosso lado, uma mesa era ocupada por um grupa de “tias”, mulheres artificiais, ele-
gantíssimas quanto feiíssimas que me fizeram sonhar com o Hino Nacional:

Contra os canhões marchar, marchar
,
As modelos desfilavam “lingerie”. “peignoirs” roupa que nos levava à intimidade da alcova. A música era sugestiva:

Quand’il me prends dans ses bras...
Il me parle tous bas...
.
O chá está a ser servido, magnífico, adivinhava-se dispendioso.
Os empregados apresentavam-nos bandejas de sandwiches, brioches, serviço verdadeiramente requintado.
Numa mesa próxima á nossa, uma família opulenta, os brilhantes faziam-se adivinhar pelos seus reflexos. O pai, julguei eu, figura de africanista, vestido de linho branco esquecido da chuva que se fazia sentir no exterior, respirava fortuna.
Do grupo fazia parte uma nostálgica mulata. Seriam as suas lágrimas negras?

Enquanto na senzala trabalhava o seu amor
Mãe preta embalava o filho branco do senhor…

Aqui perto, despertou-me a atenção, uma figura seca, mística, seráfica, parecendo estéril de sentimentos. Agarrava um crucifixo de ouro que usava ao peito, devia estar pensando: oh quanta vaidade, quanta veleidade… que perda de tempo nesta tarde social Aquela nem em sonhos se lembraria do bicho-homem, nunca teria sonhado nem que fosse com um bispo a bater-lhe à porta!!!

No céu, no céu, no céu eu estarei…

Um chapéu vermelho lindo, lindo, olhava para mim, assente numa cabeça ruiva, rosto gorducho, empoado, mulher de algum director de alguma empresa, Oh, eu conheço-a e pergunto-lhe em pensamento – Sara, trocas o teu chapéu por uma noite de amor?

Beja-me… Beja-me mucho.. como se fuera esta noche la ultima vez...

Os sons sucedem-se, os bolos passam, os modelos desfilam, só não reage aquela além, vestido com blazer branco, ao peito uma rosa negra como negras eram as suas olheiras, olhar sonhador, saudosa de estar ao pé de alguém? Ver olhos que se olham? Apaixonada? Arrependida?

Non, rien de rien, non je ne regrette rien…

Que giros ! Aqueles dois, visivelmente à parte do grupo que os acompanhava. Ela de boina preta, que lhe ocultava o cabelo, pedra verde alegrar o veludo negro. Estava embevecida pelo seu par, ele feioso, galante, óculos escuros a esconder olhar de conquista, paternalmente debruçado para a sua interlocutora, como paternalmente lhe assentava a mão no ombro. Pela sua atitude recitava, imaginei eu! O maroto estava a insinuar-se à custa de Miguel Torga:

Canto ou não canto as tetas da donzela/ que daqui da janela/
Vejo no limoeiro…

O desfile está no auge, vestidos para dançar em noites quentes, aguarela do Brasil, está
no ar…

Brasil, ó meu Brasil brasileiro…

Esta música faz-me lembrar um barco a partir, angústia duma separação.
O som de Ravel “acorda-me” a passagem está a terminar com a aparição de um vestido de noiva, já o Bolero no seu cresacendo, foi uma apoteose, Mme, Lopez agradece os aplausos.
Como o espectáculo está no fim o marido da minha amiga sai discretamente para ir buscar o carro.
-Terezinha, que horror, não tenho dinheiro para pagar o chá, o meu marido esqueceu-se!
Juntámos os nossos haveres, a custo pagamos a despesa. Que vergonha! Tão elegantes e nem demos uma gorgeta ao empregado!!!

Hei, você aí
Me dá dinheiro aí
Me dá dinheiro aí


Maria80

Pascoa 2008


Um poeta madeirense deixou-nos um poema que nos faz reviver a quadra litúrgica da Quaresma.


HORA DE NOA
Quando na cruz, ao pôr-do-sol, morreu
O pálido rabi da Galileia,
Tudo em redor no mundo escureceu
Só o espírito místico vagueia.

No nosso pensamento anoiteceu
A luz da vida, e aniquilou-se a ideia;
Tudo depois, tudo se perdeu
No caos da sombra, negra maré cheia!

E uma chaga no corpo magro e hirto
Se transformou em flor de mirto,
Na hora em que Ele encerrava os olhos pretos.

Hora de Noa, hora d’oiro e sangue…
E assim, no cálice dessa flor exangue,
Eu molho a pena, e escrevo os meus sonetos

Hora de Noa, 1917
CABRAL DO NASCIMENTO

As duas Velhas


AS DUAS VELHAS

Ao terminar a leitura do magnifíco livro Cal de José Luís Peixoto, tive um desejo forte, incontrolável, como um vómito que não é possível reter, de contar também uma historieta acerca de duas velhas.
Herdei uma propriedade onde está construída a minha casa e no quintal há um casinhoto, nele vive uma velha; herdei a casa, o casinhoto e a velha. Sempre esteve no palco da minha vida,
nova, menos nova, madura, entradota, velha, muito velha. Também herdei o marido que teve a bondade de partir para sempre, não fosse ele um velho de ouro, caso contrário, ainda estaria cá neste nosso mundo.
No quintal, entre a casa e o casinhoto, foi plantada uma abacateira, e o panorama é este: a
árvore a crescer, crescer, pujante, viçosa, dando frutos, rindo-se de nós, a envelhecer, a envelhecer, sem dar frutos .Os seus ramos abraçam a casa e o casinhoto num desejo, talvez, de nos aproximar, mas não o conseguiu, visitar a velha seria equivalente a tirar uma fotocópia.
Raramente lá vou, mando-lhe fruta, biscoitos, pudins. Não, visitas não, haveria sempre uma comparação. Ah! Os cabelos dela estão melhores do que os meus, mais fortes. Oh! A menina(é assim que ela me trata) anda tão bem e eu já não me aguento. Ui! Eu tenho barba que corto diáriamente e a menina só tem um grande bigode!
Mas, afinal, a velha, um dia, teve uma grande utilidade; a minha gata Luna, trepou até os ramos mais tenros da abacateira, podendo assim, saltar para o telhado, mas não soube descer. Esteve
lá dois dias, miando, miando com o jejum quaresmal. Por fim, chamei os bombeiros, mas eles ocupados, só poderiam vir ao fim do dia e a gata não parava de miar.
No desejo de atrair o animal para a beira do telhado, para assim o poder agarrar, chamava incessantemente: Luna, Luna; até que ouvi, vindo do casinhoto, uma voz rouca – ponham uma lata de sardinha aberta que a gata vai aproximar-se. E assim aconteceu!!!
Salva a minha gatinha, eu, a velha de cá, mandei oferecer à velha de lá uma grande fatia de tarte de maçã. Para nós duas uma longa vida.
Perdoa, José Luís Peixoto, esta imitação tão pobre.

MARIA 80

o Meu Mirante


O meu mirante – uma recordação




Orgulhoso, altaneiro, presença sólida, silenciosa, teus pilhares quais sentinelas atentas perfilhavam-se militarmente. Sobre ti, meu velho amigo, assentavam os corredores da vinha jaquet, por vizinhança lá estavam as goiabeiras e as bananeiras cujos diálogos surdos tu escutavas pachorramente.Ao fundo a anoneira secular recomendava-te as crianças. Deliciavas-te com o ruído da água de rega que nas levadas corria para cumprir a sua missão, as rosas cor de rosa, perfumadas, para enfeitar o arroz doce, alegravam as tuas pedras. Em teus muros, debruçaram-se várias gerações que vinham casualmente ver o sobe e desce da rua ou os eventos paroquiais: arraiais, bandas de música, procissões; para estes acontecimentos eras engalanado com balões de papel cor de rosa.Impassível, assististe ao desfile dos pescadores que em cortejo de fé, carregaram aos ombros enormes bolas de pedra com as quais armaram o terço que rodeia a imagem de N. S. do Terreiro da Luta. Serenamente, ouviste as declarações de amor feitas por jovens enamorados, às suas amadas debruçadas em teus muros. Imperturbável, escutaste os choros e lamentos dos familiares que iam enterrar os seus mortos no antigo cemitério de S. Luzia.No meu coração não estás destruído e junto aos teus muros: descem, descem, descem carros com noivas emocionadas que vão casar à nossa paróquia; sobem, sobem, sobem bebés a baptizar com os respectivos padrinhos muito convictos do seu papel; correm, correm, correm os carreiros que obrigatóriamente apontam aos estrangeiros a nossa igreja dizendo ‘S. Luzia church’. depressa, depressa, depressa, logo pela manhã vão os empregados a caminho dos respectivos trabalhos; voltam, voltam, voltam, ao fim do dia, os que saem, saem, saem para os seus afazeres.E assim, com estas recordações, quando subo, subo, subo ou desço, desço a minha rua, nunca esqueço a tua presença, meu mirante querido e aceno-te sempre, como me faziam os estrangeiros, quando em criança me viam lá no alto, junto a ti, desfrutando o movimento quase contínuo dos carros de cesto.






Maria80

Balança

Pôr na balança valores: nada Tens, nada vales




A palavra “partilhar” dá-nos a ideia de compreensão, união, amor, no entanto a palavra “partilha” tem-me feito sofrer.

A ARITMÉTICA NA VIDA
Somar (+)
Arrumar algarismos, 10+10=20, 50+50=100
Mais milhares
Mais milhões,
Desejo insaciável de ter +
Querer esfaimado de poder +
Enriquecer, “engordar”

Somar
É dar 1,2 beijos
numa carinha enrugada
numa pétala rosa de uma criança,
amor,2 e 4 mãos que se afagam
somar amizades, tu e eu, nós
juntar núvens, contar ondas na praia
uma, outra, sempre.

Diminuir ( - )
8-5=3 3-3=0
juros, letras
coutos de cheques
bolsos vazios
carteiras sem moedas,
procurar nas gavetas, estará alguma perdida por aí?
Diminuir é mau companheiro
É esticão
É enlouquecer de penúria
Carregar zeros que pesam como calhaus
Chupados pelo mar sôfrego,
Pôr na balança valores: nada
Tens, nada vales; o que é mais,
Pesa menos, contrariando o prato da balança
Que desce quando deveria subir

Diminuir
É ter menos peso,
Menos roupa
Menos desejos
Nada para levar
Pronta para voar

Dividir(/)

É desunião
É desamor
Árvores que crescem juntas
E caem separadas,
Deslealdade,
Aproveitar a noite para dividir sozinha
Em 2 quantas vezes há 2?
Um, fora a tabuada, há dois para mim
Nada para ti.
Desfigurar os algarismos
Mudar operações
Mascarar números

Divisão
Na sombra da divisão
Vislumbro também amor
A nosso irmão
Dividir pão
Construir liberdade
Timor

Multiplicar (X)

É beleza,
É um que vem de longe, que ama,
Que multiplica,
É uma videira que se enche de sarmentos
Todos iguais, todos diferentes
Um toca, outro pinta,
Outro simplesmente vive,
Olhinhos pestanudos
Cabelos negros uns,
Louros outros

Multiplicar
É ver despertar a primavera,
Roseiras ao sol plenas de vida
árvores em flor prometendo frutos
é infinito

Na vida, a tabuada
Pode ser leve
Pode ser pesada

Natal 2007


NATAL 2007
Caros amigos e colegas,
Para dar maior calor aos meus votos de Feliz Natal que aqui vos envio, transcrevo um poema, do poeta madeirense, Cabral do Nascimento:

NATAL AFRICANO

Não há pinheiros nem há neve,
Nada do que é convencional,
Nada daquilo que se escreve
Ou que se diz…Mas é Natal.

Que ar abafado! A chuva banha
A terra, morna e vertical.
Plantas da flora mais estranha,
Aves da fauna tropical

Nem luz, nem cores, nem lembranças
Da hora única e imortal.
Somente o riso das crianças
Que em toda a parte é sempre igual

Não há pastores nem ovelhas,
Nada do que é tradicional.
As orações, porém são velhas
E a noite é Noite de Natal

Cancioneiro 1976

BOAS FESTAS
Maria80

Tontice Precoce


A pequena Rosália era esperta como o azougue, não sossegando um só instante sentada.
Gorducha, tinha molas nas nádegas que a faziam levantar, andar aos pulos, na viveza descuidada e sacudida, como de cachorrinho com pulgas, que não se aquieta. Foi pena não ter nascido rapaz, mas cada casal tem de se contentar com a sorte que Deus lhe deu: - houve primeiro uma menina, mas o rapaz viria depois, na profecia da senhora comadre, e assim foi, como o predito.
Rosália tinha uma manifesta aversão para a cartilha, e nisso estou com ela, porque conheci o martírio de soletrar.

Que método enfadonho de aprender a ler, na toadilha indigesta, cantarolada, à velha moda da melopeia sem nexo!:

Traz / trez / triz / troz / truz /

E sempre o mesmo artifício marcante pelas vogais seguidas, até que se chegue a formar, lá para o fim, uma frase que se entenda.

Ainda João de Deus não tinha iluminado as escolas coma atraente Cartilha Maternal, inspirada pelos anjos.

Muito beliscão e chibata, senão ‘a menina de cinco olhos’, - a rude palmatória que distribuía
bolos pelas mãosinhas inchadas das crianças, castigando num berreiro de enternecer, sofrearam seus ímpetos, aquietados com o Hino do Amor, do rouxinol ao Menino Jesus.

Prometeu o poeta educador, ao despedir-se levando saudades deste mundo, que em chegando ao outro, escreveria, mas a censura celeste é apertada, para a crítica, e ainda não teve tempo ou portador.

A memória auxiliada pela inteligência uma à outra se completam a garota tinha memória em abundância, e dava gosto vê-la desengaçar cantilenas , como uma boneca falante, accionada pela destorsão de uma mola, e trautear:

Em Dezembro vinte e cinco
Meio da noite chegado,
Um anjo ia no ar
Dizendo: - Ele é já nado.

Pergunta do boi: - Aonde?
La mula pergunta: - Quem?
Canta lo galo: - Jesus.
Diz la ovela: - Belém.

E depois:

Um pastor vindo de longe
À nossa porta bateu.
- Vinde todos bem depressa
Lo Deus Menino nasceu.

Este recado tivemos,
Já meia noite seria
Estrêlas no céu. Lá vamos,
Dar parabéns a Maria.

Do povo saiu a poesia narrativa de tradições, em fomento doce, desdobrado, com que se ergueram as epopeias.

Apertada em restrita área, alheia a mais amplos horizontes e à evolução das coisas, a gente do campo é qual passarinho em acanhada gaiola, ignorando a amplidão dos ares e o matiz dos jardins.
Crescido na prisão, a saltitar apenas entre acanhados poleiros, nunca teve a sensação do vôo e das altas ambições.

Assim, é mais feliz.

Nem sempre a canção popular tem a mesma simplicidade, havendo uma baralhada de crenças e superstição, com barbarismos, deturpações e corruptelas, senão desbragada linguagem, por vezes numa inconsciência do conceito, não compreendendo o povo, o alcance do trovador que a ditou.

Quem ensinava reza à Rosália era uma tia madrinha, tia também do pai, velhota dona da casita onde todos viviam, meeira de três alqueires de terra de pão, na Lomba, e quatro barris de vinho, no Chão da Várzea, com o senhor morgado, a partir. Em nova, fôra criada de um cónego fidalgo, que lhe deixou em testamento as pesadas fivelas de prata e a calçadeira do mesmo metal, pelo cuidado havido em pontear-lhe as meias encarnadas, e aprontar sempre a horas, bem lustrosos os sapatos.

Tinha ela, últimamente, colocado no oratório, as ditas fivelas, como lembrança para rezar, mesmo antes de lavar a cara, um terço em benefício da alma do seu antigo patrão. Vê-se bem que estava, um tanto caduca, pelo amolecimento cerebral.

A pequena andava, um dia, ao sol, à caça das lagartixas, com um caulesinho de balanço, armado em laço corredio, e uma boguinha de cuspo, no extremo, para servir de engôdo, quando a velhota a chamou pela terceira vez:
- Rosália! Não ouves, ó Rosália? Deixa essas bichas peçonhentas que ainda teem vida, depois de azoigadas (mortas). Anda daí, que ainda não estás segura no Credo, minha cabecinha de vento.
- - Lá vem a madrinha com o diabo da reza, em que também já não acerta no que diz.
- Abrenúncio! Foge cão ardido, não atentes os cristães.
- Benzendo-se, endireitou-se sobre a cadeira carunchenta de vimes, num esforço penoso para os seus achaques.
- - Vamos a isto, vai dizendo comigo.
A pequena tinha razão o Credo andava estropiado em falhas de memória, embora o tivesse sabido na perfeição, mas agora a velhota com ferrugem na engrenagem do pensamento, fundia as palavras com equivalente ressonância:
…Jesus Cristo um sócio filho… padeceu sobre pontes e telhados (sob Põncio Pilatos) etc. etc.
sentia desgrudar-se-lhe o tampo do cérebro, a escoar os miolos num vazio escaldante.
Apressou então o resto do Credo, com ansiedade:
…desceu aos infernos ao terceiro dia…
- ó madrinha, isso que quer dizer?!
- Já soube muito bem explicar esta passagem, mas doi-me as fontes a latejar. Fica para outro dia.
Rosália bateu às palmas, deu dois pulos de contente, e foi-se a cantarolar:

Padre nosso pequenino
Deus me leve a bom caminho
Santo Cristo ajoelhou
E seu sangue derramou!

Coisa má me não atente
Nem de noite nem de dia
Nem em pino do meio dia.

Aquilo é que era uma reza boazinha, no rodar da dobadoura, sem embrulhar a meada
A velha ficara pensativa. Sobressaltava-a aquele dizer do Credo, e poz-se a ruminar
Como era a explicação do senhor cónego – que Deus tenha em seu reino de glória.
Rosália é muito esperta e quer saber como foi aquele terceiro dia nos infernos! É onde baquearam os anjos maus?!
-Cruzes! Valha-me Santo António. Arrenego dos demónios.

Ressoavam-lhe cavamente rouquidos de falta de fé. Santo António, de certo não me vem auxiliar, depois que me puz mal com ele, e agora nem lhe rezo, nem lhe dou bom dia ou boa tarde, por ter deixado secar a laranjeira, não curando o mal de olhado que lhe aferrou a mulher do serralheiro.

Acudiu-lhe humildemente recitar uma oração que ela dizia ser em latim:

Magnifica meia dom. Altares meus, atormento-vos, eu. A corda é sua, a braga é sua, aqui me respecto com o seu militaire. É da graciona, pregena, pregena, tormento-vos êna…(1)
Não devia amofinar-se e serenar o vesúvio das heresias pronunciadas.

A intenção é que é tudo. Elevara piedosamente o espírito aos céus, porém já não sabia convenientemente exprimir-se, e não tinha o perfeito conhecimento das barbaridades vomitadas.
Entrara no período da tontice, gasto o vigor intelectual em demasiados exercícios de piedade, e o físico amarfanhara-se pelos trabalhos e canseiras domésticas.

(1) – Consegui a trôco de uns vintens, que me fosse ditada em uma das freguesias rurais.
ALBERTO ARTUR

Alberto Artur Sarmento


O Diário de Notícias do Funchal, publicou, há já algumas semanas, um artigo sobre o escritor madeirense acima mencionado:
“ O Tenente-Coronel Atlberto Artur Sarmento foi um dos mais prestigiosos intelectuais madeirenses da 1ª metade do século XX…” esta notícia fez-me recordar um ente tão querido. Tem uma obra vastissima, acerca de assuntos vários sobre Naturismo, História Insular,Folclorista etc.
Era eu criança e fiz-lhe o seguinte pedido – Tio escreva um livrinho de historias porque esses assuntos científicos não são para a minha idade. Mais tarde foram editados dois livrinhos de contos dedicados a mim, sua sobrinha: Quadros sem aro e Folhas ao vento, dos quais eu seleccionei um, que passo a transcrever:

NEVOEIROS DE VERÃO

Leve, corriqueiro, corre veloz, pelo estio, o nevoeiro.
Nasce em vapor de água, insubmisso, no bafo da atmosfera, frequente nas regiões altas, em saturação. Ligeiro, esfria, condensado, em poeira liquída, nas minúsculas gotinhas suspensas, de tão fraca densidade, que se unem em cortina e o horizonte se acanha, então, fusco, tapado, como núvem tombada e de arrasto pela superfície, na extensão que véda, translúcida, logo apertada, opáca, quando mais se concentra, e a distância é pouca no arrenégo da visão toldada.
Êle aí vem, o nevoeiro, por entre o pinheiral cerrado, rasgando gazes, em farrapos pela ramaria. Côa-se, desvanece, engasgalha, escorre, foge, resoluto e submisso, à direcção da aragem.
Estende-se, encosta abaixo, para marinhar acima, pela ravina oposta. Mergulha e sobe, volúvel, pelo vale aberto.
Arranha fiandeiro, emaranha, mas discorda, abranda e se esvai.
Além, um outro nevoeiro mais velho, escapado por detraz dos montes, vindo a espreitar a portela, desiquilibra-se e tomba, em cascata de algodão. E assim mais afoito, mais leve, menos denso se impõe, mas, a fugir se cansa, e se dissolve, desistindo da perseguição.
Nevoeiro espalhado pela zona saturada, é um lençol aos rasgões, em cama de gente pobre, rôto, onde houve briga na acomodação e se fez a paz, quando o sono veio pesado.
Visto de cima, duma eminência, não longe, as rochas dos cabêços degolados, caras porém prazenteiras, escanhoados os montes soerguidos, sôbre a espuma de sabão em flócos brandos.
Aquietado o panorama é êsse, como se alguém tivesse visto o primitivo dos tempos geológicos da paísagem oceânica, inicial da formação das Ilhas emergidas de dôrso à-flor, incertas de base, sem consolidação, a formar recortes de pontas e promontórios, arquipélagos esparsos, mal compostos.
O sossêgo não dura, é certo. Há quebradas e ligações, repulsas nas afluências bipartidas, onde se formaram enseadas e baías, em requebros inquietos,e tudo isto efémero, rolante, suspenso, elevado entre nuvens atribuladas, mudas, branqueando indecisas, sem atinar numa finalidade.
A névoa vai, depois em desgaste.
Raleia na espessura, desfaz a touca apertada de fólhos, destramando o fio pela malha frouxa, inconsistente.
O sol não quere brincos, assim a fingir de lua pálida, constrangida, nem tão pouco, fazer de judeu amortalhado, envolto em váras de linho, formando um embrulho volumoso. Ressuscita, desperta, olha tor um ralo aberto, radiante, em disco de oiro
Retoma calôr, esgarça, repele a mortalha, avança, dissolve e varre, mostrando o dossélde setim luzente no céu de anil.
De joelhos, o nevoeiro cabisbaixo, no sopé dos montes, pede perdão das ousadias da sua água em pó. Recua, foge, chora, sacudindo aljofres sôbre a terra, gôtas de orvalho, bêbedas de luz, água fecundante que se transforma, depressa, em seivas e frutos na grande retorta da Natureza.

1) Alberto Artur, Quadros sem aro, Desenhados à pena na Ilha da Madeira, Funchal, MCMXLIV, Tip. Eco do Funchal, pag. 8t

O MEU VIZINHO JOÃO


Ao regar o meu jardim tive a infelicidade de dar uma grave entorse que me obrigou a caminhar de canadiana e mesmo com esta ajuda, claudicava muito.
O meu vizinho João ao ver-me passar neste estado, mandou à minha casa a sua esposa, figura gorda e bem enfeitada com ouro, para oferecer os seus préstimos, porque “somos uns para os outros”.
Como recusar este espírito de solidariedade?
Aceitando o “tratamento de aberto” tão generosamente oferecido.
Assim, todas as manhãs, nove dias “a reio” passou o meu vizinho a visitar-me com um sorriso nos lábios deixando entrever dois a três dentes de ouro; num dos dedos usava um anel de aço contra “o ar que passa”.
Recebia-o na minha sala cujas paredes estremeciam com o teor das nossas conversas.
Uma vez instalados nos maples, estendia na sua direcção o pé doente, ele, pegando num novelo de lã e numa agulha grossa, começava por perguntar-me: - Eu o que curo? Ao que eu tinha que responder, sem errar – carne quebrada, aberta ou “dementida”. Ao mesmo tempo que ele cosia o novelo, recitava religiosamente a seguinte oração: é isso mesmo que eu curo, se é carne quebrada volta à tua casa, se é “dementida” torna à tua vida, se é nervo torto toma o teu soldo, assim como neste novelo coso. Sant’Ana pariu Maria, Maria pariu Jesus, assim como esta é a verdade assim soldes tu; vai-te com o SSS Sacramento o mal para fora o bem para dentro. Cuidado com esta frase, porque se é dita ao contrário não há cura.
Terminado o “tratamento” seguia-se um diálogo ameno. Recordo encantada as conversas com este homem, figura de emigrante que voltou ás suas origens são e incorrupto como saíra. Como trabalha nas suas terras o assunto incidia especialmente sobre o cultivo das semilhas, couves, etc. Geralmente o jardim em frente à minha casa era regado pela manhã
e o ruído da água dava ao ambiente um clima campestre. – Sr. João, perguntei-lhe um dia, acha que eu tenho mau olhado? Ele olhou seriamente para mim por uns segundos, - não, não tem, se tivesse eu ficava com os olhos rasos de água. Sabe a Sra. Professora (é assim que ele me trata) há gente que não pode ver nada. Eu tinha uma abóbora dum tamanhão, num corredor, lá em S. Vicente, um vizinho de mau olhado disse-me: vou deitar a abóbora ao chão, e deitou mesmo! Fui-lhe às ventas, dei-lhe uma estalada.!!!
-Sr. João, como vai a sua esposa? – Ela agora está boa, passou-lhe uma “ponta d’ar”, mas eu curei-a. – O Sr. João também cura “d’ar”? Ah sim, respondeu-me ele, e passou a recitar:
Jesus Cristo foi nascido, na Divina Encarnação tirai o ar e o frio de cima deste cristão; ar frio vai pr’a serra, ar frio vai pr’ao mar, não oiças nem galo nem galinha cantar.
Eu ficava como que hipnotizada neste ambiente de magia. – Sra. Professora tenha cuidado com o sol na cabeça, fica-se muito esquecidos! Mas se for preciso eu também sei curar. Nove dias “a reio”, tapa-se a cabeça com uma toalha de linho com cinco grãos de trigo e diz-se assim: a Sra. Santa Iria pelo mar ia curando o seu filho, do sol, da calmaria, encontrou a Virgem Maria que lhe perguntaria como curaria com alva branca e um vidro de água fria; vai-te com o nome de Deus e da Virgem Maria.
Por vezes eram os cães vadios da minha rua que ao ladrar me arrancavam do encantamento
causado pelas conversas do Sr. João, então “acordava” e dizia-lhe amigávelmente – Muito obrigada vizinho, até amanhã se Deus quiser.
Como a minha saúde está garantida com este ingénuo e bondoso amigo!!!
Observação: a cura d’aberto é compatível com fisioterapia.
Maria 80

Fé Ingenua


Maria de Jesus era a filha mais velha do caseiro das terras que sua madrinha possuia em Machico. Com dezasseis anos apenas, mas ‘deitara corpo’, esperta, viva, aprendera a ler e a escrever com facilidade e então a tabuada e as rezas, sabia-as na ponta da língua
O seu maior desejo era servir em casa alheia na cidade.
Não era sensível às belezas naturais da sua freguesia. O belo vale de Machico, para ela, era o corredor de entrada do vento, que no Inverno e não só, flagelava os habitantes de vila. A meia coroa de montanhas que a separava dum mundo, que adivinhava aliciante, parecia-lhe o muro de uma prisão difícil de escalar, apenas por sinuosos carreiros .O mar, sim, era uma esperança de um dia embarcar naquele trémulo vaporzinho que a libertaria duma vida sem expctativas.
O pai, numa das suas idas à cidade para fazer contas da colonia, desabafou com a comadre, quanto a vida lhe era difícil com a ‘catruzada’ de filhos que tinha! – se a senhora quisesse receber a Maria de Jesus, sua afilhada, seria um desafogo! –Por acaso ando à procura de uma rapariga para ajudar a Rosa (a cozinheira) que está ficando cansada. Traga a pequena.
E Maria de Jesus, apertada num vestido de chita, sapatos de solas de pneu, os lindos cabelos louros apertados numa impiedosa trança, à cabeça uma trouxa com os seus parcos haveres, chegou a casa da madrinha.

A casa era um mundo! O pátio de entrada com dois armários de portas de vidro, cheios de louças lindas, imponham respeito; subia-se uma escada: à direita um quarto de dormir, Maria de Jesus olhou para a cama enorme, lembrou-se da sua, onde à noite, se arrumavam três irmãos para passar a noite. Ladeando a cama, duas cadeiras de braços, com uma tampa ao meio???
(mais tarde veio a saber a utilidade das caixas de prever). Ao lado um quarto de vestir, para quê, interrogou-se?
A saleta, em frente, como a madrinha explicou era para receber as visitas. E o oratório, no quarto da menina, parecia uma capelinha, com tantos santos, velas e flores!
Rosa, a criada antiga, falou-lhe de toda a família: os padrinhos, a menina Leontina, a linda senhora velhinha que tinha a boca tão pequena que só comia com colher de chá, o senhor frade, que não era frade, mas vestia como frade – cruzes! Pensou Maria de Jesus, com aquelas barbas brancas parecia o Senhor Santo Antão!!!
E a pouco e pouco a criadita, foi-se habituando à família e ao serviço. Das suas obrigações o que mais a deliciava era limpar o oratório, tinha tantos santos lindos. Que santa seria aquela com um chaga na testa? Não a conhecia. – é Santa Rita de Cássia, advogada dos impossíveis, explicou-lhe a menina, se tu, Maria desejares um coisa muito difícil pede a Santa Rita que Ela vai-te ouvir.
Vivendo naquela familia, tão desafogada, Maria de Jesus foi reflectindo que com o seu ordenadito não chegaria a lado algum. Lembrou-se então de Santa Rita, essa era quem lhe poderia dar um ‘ror’ de dinheiro, para poder concretizar alguns dos seus sonhos. E antes de alindar o oratório, Maria de Jesus passou a rezar devotamente á frente da sua advogada dos impossíveis. Não passou desapercebida tanta devoção e Leontina , um dia perguntou-lhe – Maria, o que estás a pedir a Santa Rita com tanto fervor? – Menina, estou a pedir-lhe dez contos (que para a época era uma boa maquia). E multiplicavam-se as rezas. Inexplicavelmente as orações fervorosas tiveram fim. Admirada com esta mudança de atitude, a menina teve curiosidade de saber a razão de tal desinteresse. –Então, Maria de Jesus já não rezas a Santa Rita? –Oh, menina, eu deixei a santa em paz, o que ela não se agoniava, eu a pedir-lhe dez contos e ela sem ter para mos dar!!! Já não a atento mais.

E a vida continuou, Maria de Jesus cumprindo bem as suas obrigações, agradável, amiga de todos. Passados alguns anos, Leontina, muito devota, tomou a decisão de seguir a vida religiosa
e…antes de partir para o convento, ofereceu a Maria de Jesus um poio de inhames situado na ribeira de Machico, cujo valor excedeu os dez contos que ela tanto implorara aos céus.

Foi de uma maneira prática que Santa Rita correspondeu a um pedido tão oneroso.

Maria80

Desculpas ao pato





Querido Patinho,

De certeza que pensaste que tinha sido uma grande barbaridade arrancar-te

do teu lago, onde com a família desfrutavas o prazer de viver, nadar, flutuar, pois apenas com um pequeno movimento das tuas patinhas, deslizavas suavemente sobre as águas. Julgo que os peixinhos vermelhos que habitavam no teu mundo aquático já deram pela tua falta.

Mas, olha, venho contar-te a alegria e o prazer que nos proporcionaste, a nós Homens,

Costa e Gouveia, reunidos à tua volta, cozinhado, bem temperado com amizade e simpatia. Desculpa-nos, foi à custa da tua vida, que nos sentimos tão felizes, naquele dia de sol dourado, a família reunida a saudar o casalinho que está a se preparar para ‘arrancar’ a sério, para a vida. Reflecte, patinho querido, no que à tua volta se desenrolou: um convívio familiar cheio de calor humano, as crianças a brincar, o par de noivos a noivar, os adultos a saborear tua carninha gostosa, em conversa amena, as idosas a recordar o passado.

Eu julgo que este quadro irá ajudar-te a aceitar a tua triste sina e pensa que serás sempre recordado. Se não tivesses estado entre nós, num arroz gostoso, quem se lembraria, jamais, de um vulgar pato que nadava, algures, num pacato lago.

Maria80

Coctail


CONVÍVIO SOCIAL
Tal como as pedras do calhau são delapidadas, esfregadas, alisadas pelas marés, assim o tempo, os anos, nos vão moldando, modificando em vários aspectos. Quando eu era jovem adorava o convívio social, os preparativos, a toilete, a jóia a usar, mas actualmente, só na intimidade, no convívio de óptimas e sinceras amigas, eu não me sinto invadir por uma sensação de cansaço, de vazio, esse que eu deixo transparecer no texto abaixo:

COCTAIL
O cair da tarde é a hora por excelência para encontros de sociedade. Os diversos extractos sociais fazem-se representar por políticos reluzentes, rubicundos, altos dignitários da Igreja, logo rodeados por pias matronas, os diplomatas circunspectos que beijam religiosamente a mão às senhoras, os familiares, alguns caquécticos a sorrir complacentemente, já incapacitados para acompanhar os diálogos à sua volta, as amigas que se beijam esfusiantemente, etc…
…”olhai e vede como eles se amam”…
Retalhos de conversa à minha volta:
…é uma ofensiva arrogante contra os direitos e a cultura…
…é certo que as leis do ruído devem ser respeitados, mas é uma manifesta má vontade contra
as tradições da Igreja…
…a ineficiência da polícia permite que se agridam os transeuntes até com spray nos olhos…
…o bebé quando é esperado…
…estou a convalescer duma gripe pertinaz…

Lá fora, no jardim, o sol está a esconder-se por detrás das árvores, desinteressado de tanta futilidade e ao olhá-lo fugidio, lembro-me de outros fins de tarde em que as nuvens coradas de tanto brincar com o astro Rei se vão diluindo nas sombras do crepúsculo; de outras tardes
em que ouvia, à distância, os seminaristas a cantar as vésperas, na capela do antigo seminário, em tom ritmado; de outra tarde em que o Sol já mortiço, veio beber calor humano, brincar com as chávenas e os sobejos de um chá gostoso e iluminar os cabelos de um grupo de amigas que, à volta da mesa, me olhavam com sincera afeição.
Distraída com os meus pensamentos, partilhava da conversa com palavras vazias. A pouco e pouco começo a sentir os passinhos lentos da tarde a encaminhar-se para a noite, olho para o relógio, está na hora de elegantemente sair, mas é da praxe da família que os convivas assinem o Livro de Ouro, principiei a escrever o meu longo nome, lentamente, para amolar quem esperava pela sua vez,

MARIA TERESA DE MORAIS SARMENTO RODRIGUES HOMEM DE GOUVEIA,
feliz por não me chamar apenas Maria Gouveia.

Margaridas

DINASTIA DAS MARGARIDAS:

Em família sempre prestei homenagem ao nome MARGARIDA, pois assim se chamaram a minha bisavó, avó e posteriormente minha filha e um das minhas netas.

Vejamos o que a minha Margarida, a terceira da dinastia, pensa a este respeito.

O PORQUÊ DE ME CHAMAR MARGARIDA:

Margarida é o nome de uma flor, eu sei! Há quem não as aprecie porque o seu cheiro é um pouco desagradável, mas de uma grande beleza, decorativas, dignas de enfeitar o mais nobre salão; existem também as campestres, à beirinha das estradas, agitando-se à mais pequena aragem que por elas passa, outras mais atrevidas tentam subir as encostas em busca de mais sol.

Há quem prefira as rosas pois o seu perfume é mais atractivo, flor preferida pelos apaixonados que adoram presentear as suas amadas com lindos bouquets enfeitados com belos laços coloridos, mas os espinhos? Quem é que não se lembra de nunca ter picado os dedos nesses traiçoeiros picos de tão magníficas flores?

As minhas duas bisavós: Margarida de Sabóia e sua filha Margarida Teotónia, eram como as flores campestres, belas mas resistentes, que não se deixavam desfolhar à mais pequena aragem, eram mulheres firmes e de garra.

Sempre gostei do meu nome! Não me perguntem porquê? Talvez porque toda a minha vida ouvi falar destas minhas bisas, da sua simpatia e bondade.

Minha mãe adorava essa sua grande avó e ouvia-a com gosto desfiar suas recordações:

Histórias da sua infância, na Quinta Margarida, o estudo prolongado de piano, o carinho com que a criada lhe preparava, numa terrininha de loiça azul, uma açorda bem gostosa, para lhe dar ânimo para continuar com o seu trabalho; dos brincos de ouro, com franjinhas, que me pertencem actualmente, comprados com o fruto do “negócio” da venda dos ovos da sua querida menina à minha trisavó, pois alguns pintainhos da ninhada tinham lhe sido atribuídos. Os passeios a cavalo, que tanto apreciava, a descrição do seu fato de amazona, enfim um desfilar de doces lembranças.

Lembro-me dela vagamente, pois não tive o privilégio de crescer a seu lado, somente através das histórias contadas pela minha mãe, muitas vezes com os olhos húmidos de emoção.

Cresci e verifiquei que tinha herdado o seu nome, que tanto preso, e sinto-me como uma bela margarida, colhida no seu jardim e pousada no seu regaço.

Gostaria de possuir algo mais da sua personalidade mas guardo como uma relíquia o seu nome, que para mim é um tesouro.

E se um dia mais tarde eu tiver netos, resta-me a consolação de que serei também uma avó Margarida.

Margarida

Nossa Senhora do Carmo


Senhora, Porque Sois a predilecta do Pai; porque o espírito santo realizou em vos a encarnação da palavra; porque sois o modelo da igreja e nela ocupais o lugar mais alto e também mais próximo de nós, porque sois conhecida como Mãe de Deus, Mãe de Cristo e Mãe dos homens, porque todos os crentes vos chamam bem – aventurada, porque temos no vosso Escapulário um sinal de protecção e de união ao Salvador, e um programa das vossas virtudes, porque na vossa promessa ofereceis ajuda nos perigos do espírito e do corpo, recorro a vós, medianeira universal entre Deus e os homens, e me consagro a honrar-vos sob a invocação de Nossa Senhora do Carmo, em obsequeio do nosso senhor Jesus Cristo. Ámen.

Igreja do Carmo – Funchal

Uma manha muito especial


Naquela manhã tive a sensação que o sol se levantara mais cedo, no desejo de ir brincar com as lindas crianças
Vestidas de branco, que enchiam o adro da Igreja de Sta. Luzia, iluminar seus cabelos enfeitados com flores e fitas, fazem
brilhar mais e mais os seus olhinhos cheios de expectativa pela cerimónia que as aguardava.
Fernanda de Castro refere-se a este evento, com muita beleza e espiritualidade, no seu poema:

PRIMEIRA COMUNHÃO

Senhor,
Pouco resta no mundo que mereça
O vosso olhar.
A Humanidade, sem graça, é triste…
Pombas de asas cortadas, rosas murchas,
Povoam vosso altar!

Senhor,
Pouco resta no mundo que mereça
A vossa graça.
Nas cearas do Céu alastra o joio,
A colheita do amor é pobre e escassa.

Senhor,
Algo porém, no mundo ainda merece
A cruz e a palma
Da vossa glória… As almas das crianças
Açucenas do Céu, ainda são almas,
Alma que é mais dos anjos que dos homens,
Alma que sabe a flor, a fonte a pão
E a Vós sobe, puríssima e radiosa
Nesta manhã de Primeira Comunhão.

FERNANDA DE CASTRO

O pedido de casamento

Preparativos – confeccionar um bolo

Bolo de Família

Esta noite sonhei com aquele primeiro longo beijo, gostoso, com sabor a bolo preto.

À medida que os anos correm, “sinto-me livre e desassombrada” como diz Luísa Beltrão,” livre e sem disfarces” para falar de certos momentos da vida

Lá em casa as datas festivas eram sempre assinaladas com um bolo família; um pedido de casamento merecia esse requinte. Foi um bolo maravilhoso!

Conceição, criada da casa, afadigou-se a prepará-lo, dizendo de cor e em voz alta:

¼ kg de farinha, ¼ kg de açúcar…2 ovos……

Aquele 8 de Dezembro, dia do meu noivado, foi muito emotivo; através dos tapas sóis vi o noivo chegar com um embrulho na mão, que pelo seu formato e tamanho, me fez pensar ser uma garrafa de licor;

…125 gr de manteiga derretida com uma colher de banha

(deixa-se arrefecer antes de incorporar na massa)…

será que ele me vai oferecer licor?

Bicarbonato de soda, canela em pó, raspa de limão, 1 cálice de vinho Madeira

1 cálice de mel de cana…

Sempre tínhamos namorado na Trav. de S. Luís, longe bem longe um do outro, com um lobo da Alsácia a rosnar à minha volta, e agora, ter aquela beleza junto de mim, empolgava-me.

Mas que oferta tão esquisita!!!

…1 chávena de leite morno, 50 gr de cidra, 50 gr de passas, 50 gr de nozes

picadas

Parecia não chegar o momento de abrir aquele embrulho tão desajeitado…

Misturam-se os secos, depois os outros ingredientes e vai ao forno em forma untada…

Eis-me de oferta na mão, desanimada, abri-a lentamente, licor não, pensava aflita, rasguei o papel, nervosa e… vi um estojo grande que continha um lindo adereço

de ouro e pérolas, que a minha sogra recomendou, seria para a mulher do seu filho predilecto.

…recomendo que é melhor deitar 2 c/c de soda e de canela em pó, aumentar para 3 o número de ovos, aumentar as doses de cidra, nozes e passas

Vale a pena confeccioná-lo mesmo num dia não assinalado.

Férias


Para encerrar as actividades de “Leitura e Escrita” do Departamento dos Professores Reformados do Sindicato de Professores da Madeira, a professora sugeriu à turma que cada qual escrevesse acerca da rua da sua residência. Assim surge a Travessa de S. Luís.

Travessa de São Luis


A Quinta Sarmento em Sª. Luzia, onde nasci e vivi largos anos, era limitada ao norte pela Trav. de S. Luís.
Apesar de ter feito algumas sondagens não me foi possível saber, porque entre a corte celestial foi escolhido S. Luís para a toponímia da minha Travessa.
Solitária, então, ladeada por muros de propriedades agrícolas em cujos rebordos caiam verdejantes as ramas das batateiras em luxuriosa abundância, muros de quintas, casinhas modestas escondidas entre o arvoredo das fazendas. Muitas vezes enlameada pela água das regas, que nos seus giros encharcavam os poios e também a triste rua.
Em frente à nossa porta de serviço, junto ao terreno do vizinho ‘Bacalhau, juntava-se, habitualmente uma grande poça que se cobria de lodo e para a qual, saltavam em animada excursão, algumas rãs do nosso poço, ali perto, por detrás do muro.
Os transeuntes, eram sempre os mesmos, alguns esporádicos pares de namorados que
Desejavam usufruir da pacatez da minha travessa para suas conversas e fugazes carícias.
O Sr. Luís de foice ao ombro, dono de uma fazenda onde ele criava cabras, seguido pela mulher que nunca ousava caminhar a seu lado, sempre atrás, a Sª.Gomes e sucessivamente os cinco maridos (quem a enterrou foi o ‘Papo Roxo que por não ter dinheiro adiou três dias o funeral), o mestre Milho, que era sempre muito regular nas suas passagens. À tardinha, lá vinha ele acompanhado por uma mula velhota que puxava uma corsa carregada com várias latas de beberagem que ele ia recolhendo, de porta em porta dos vizinhos, que à sua maneira colaboravam para a engorda dos porcos.
Há anos atrás, as vendas ou mercearias vendiam tudo a retalho, inclusivamente o petróleo. Este era distribuído aos negociantes em latas quadrangulares e, citando Alberto Artur no seu livro ‘Redemoínho de Folhas ‘…´A lata de petróleo, depois de vazia e com o tampo cortado, tem várias utilidades, e até serve para lagartixeiro ou armadilha para apanhar lagartixas que tanto dano causam às uvas e frutos maduros, mas o seu emprego mais vulgar é como reservatório ou vasilha da buburage, para o porco, a dentro da qual são lançadas as águas gordas da cozinha, provenientes da lavagem das panelas e dos pratos que serviam às refeições, sobejos da comida e cascas de fruta, a que por vezes se lhe adicionam sêmeas para a engorda do suíno…. Junto às cozinhas marcavam o seu lugar a fim de não se desperdiçarem os restos das refeições.
À noitinha não passava ninguém e por esse motivo eu e o meu namorado escolhemos a Trav. de S. Luís para os nossos diálogos de amor; aí, o muro da nossa propriedade era muito mais baixo do que os outros que rodeavam a quinta, e sendo assim tínhamos a possibilidade de acariciar as pontas dos dedos. Só éramos interrompidos pela passagem do sacristão da Igreja de Sª Luzia que passava ziguezagueando, muito alegre com os copos que bebera na tasca, nunca se esquecia de nos cumprimentar.
Anos mais tarde, a minha mãe construiu no terreno paralelo à travessa, uma casinha, onde fixei residência. E, curioso, exactamente no lugar onde eu namorei, está plantado
No meu jardim uma “árvore dos dentes”, que anualmente floresce a alegrar o muro onde outrora ouvira gorjeios de amor.
Séculos XX e XX1 – dos poios, das bananeiras surgiram prédios modernos de habitação. A Travessa de S. Luís já não serve para namorar.

Criadas Antigas


A JOSEFINA

Menina…
Vou ao encontro da criada antiga da minha avó, a Josefina da Encarnação, sobrenome este atribuído a todas as crianças abandonadas na roda da Santa Casa. Sempre trabalhou como empregada doméstica na nossa família, à qual passou a pertencer também. Com grande dedicação à minha avó a quem chamava “minha querida e santa senhora” esmerava-se no seu serviço, que, diga-se, era rigorosamente cronometrado cada minuto valorizado, horários exigentemente respeitados, por exemplo, o chá pontualmente às cinco horas (nem cinco minutos antes nem cinco minutos depois). A minha avó era escrava do relógio!!!
Josefina, uma figura inesquecível, vestia habitualmente saia rodada pelos tornozelos, avental quadriculado que a acompanhava quer no comprimento quer na largura. Adorava os seus gatos – o Ruca e o Januca – os quais, vendo-a sentada, aproveitavam o seu colo fofo para dormirem uma boa soneca. Que inveja isso me causava!
É que eles desprezavam os meus joelhos finos e magros cobertos apenas por um vesti dito curto.
A cozinha era o seu mundo. Estou a vê-la: grande… enorme, escura mal iluminada por janelas e portas de postigo. Ao centro uma mesa de “apóstolos”, ao fundo a lareira encimada pelo olho cego do forno do pão; o fogão de ferro, orgulhoso dos seus metais amarelos, sempre reluzentes e que quantas vezes encheu o ambiente de fumarada! A seu lado o pacato “cigano” que, coroado por uma chaleira também de ferro, era uma garantia de água quente ao longo do dia. Classifico-o como o tataravô da chaleira eléctrica. O grande pote de barro, actualmente com flores no meu jardim, mantinha sempre fresquinha a água para beber; a “gaiola” dependurada na zona mais fresca da cozinha era o frigorífico da época, pois aí eram guardadas as sobras das refeições.
A Josefina detestava a chuva e logo que pingavam do céu as primeiras “lágrimas” ela ia apressadamente para o quintal e aí ponha-se a rezar, de braços abertos, em alta voz com entoação e cadência:
-Santa Clara clareai…, Santa Luzia …alumiai.
Se não fosse atendida nas suas preces não desanimava e a cada ameaça de chuva repetiam-se sempre os seus pedidos. Aliás, era uma perita em rezas – para afugentar a chuva, contra o mau-olhado, para curar erzipela e outras coisas mais. Mas a que ela considerava mais eficaz era a oração de Santa Teresa, que operava verdadeiros milagres. Ainda hoje sei recitá-la:

Nestes empinos do céu
Um anjo se converteu
Em pedir esmola a Trezia
Trezia se compadeceu
Ao ver o seu pobre tão tarde
Sem ter nada de comida
ao refeitório tornava
ao refeitório tornou
o seu regaço encheu
ao seu pobre trazeu
Aqui tendes ó meu pobre
Que por isso Deus nos deu
E vos peço ó meu pobre
Que vinde aqui cada dia
q’eu vos quero favorecer
aqui nesta portaria.
O pobre por não faltar
Por quem há-de perguntar?
É por Trezia de Jesus
É por Jesus de Trezia
Que nos deu a d’vina alteza
Que nos eu a Santa Trezia.
Quem esta oração disser
Quer na terra
Quer no mar
Quer em caso de necessidade
É Jesus de Santa Trezia
Que nos vem acompanhar.
E, Santa Teresa lá no alto não levavas a mal tanta lenga-lenga recitada com muita fé e ingenuidade, e, tenho a certeza que acedeu a muitos pedidos da boa Josefina.

Olha!!!
Olha Josefina!!!
(Estou a rodar os ponteiros do relógio do tempo…2006…1940…1933…1932) a rarde está a cair, está na hora de encher o cigano, vamos ao barracão velho cheio de teias de aranha que sempre me amedrontaram, as sacas de farelo esperam lá por nós. Coloca o fogareiro a teu jeito, eu seguro firme os dois paus de lenha, em ângulo recto enquanto enches o espaço em seu redor com o farelo bem…bem calcado.
-Está cheio?
-Então tira os paus de lenha. Eu gosto de ver o espaço que estes vão deixar, espaço bem moldadinho que dará passagem ao calor tranquilo, que o pachorrento cigano nos dará dia fora…
O cheiro do farelo de pau, esse jamais o esquecerei!!!

Teresa Sarmento (recordação da minha infância)

Mãe


Margarida A minha filha, há alguns anos, dedicou-me as seguintes quadras, são cómicas:

À minha mãe Teresa – Quadras de pé-quebrado:


Umas quadras à mãezinha
Eu queria dedicar,
Já dei voltas ao ‘miolo’
Mas por onde começar?·
Essa senhora distinta
Não me sai do pensamento
Com a sua mancha branca
É Dona Teresa Sarmento

Viva e muito interessada
E como é inteligente
Resolveu seguir um dia
A carreira de docente

Conhecedora de música
Amante do teclado
Deu aulas de Grafias
E também Secretariado!

Fez estágio na Escola
E tudo fazendo certinho
Não é que acabou colega
Do velho Prof. Sobrinho!

Tem muitos passatempos
E para mudar o cenário
Vai todas as semanas
Colaborar com o vigário

Faz jarras e enfeites
Decoradora de igreja
Passa os sábados entretida
Não há olho que a veja!

À tarde regressa a casa
E antes de ir p’ra o jardim
Pergunta à criada
Alguém telefonou p’ra mim?

Janta cedo vê novelas
Colecciona postais
Que será que a mãezinha
Pretende fazer mais?

Dou-lhe os meus parabéns,
Pois ao longo destes anos
Como pôde superar
Tamanhos desenganos?

Uma coisa não entendo
Saindo eu do seu ventre
Como posso ter pretensão
De ser sequer sua parente!

Foste esposa, foste mãe
Amiga, avó carinhosa,
Diz-me só se uma filha
Não há-de ficar vaidosa

Um dia chegarás ao céu
E se encontrares um anjinho
Pede-lhe que me reserve
A teu lado, um lugarzinho.

Margarida

Gosta de ?


MARIA80 GOSTA DE:


Olhar para o alto:

Fizeste – me Senhor
P’ra Vos amar, servir, obedecer,
E vede
Estou cansada de percorrer caminhos tortuosos
Isolados
Sem flores
Sem prazeres…
Mas,
Quero ir mais além
E,
Se cada passo dado
For um espinho arrancado
Do Vosso Coração
Eu
Caminharei a vida inteira
Onde houver só
O pó
A rocha
O espinho
Se for esse o caminho

Ler

Os Maias, O Equador, O velho que lia histórias de amor, a Pomba.

Poesia

Khalil Gibranh, Alexandre O’Neil
, Cabral do Nascimento, Mário de Sá Carneiro

Escrever

CANTIGA DE AMIGO

O sol me desperta, o sol me levanta
O sol me veste que a pressa é tanta
Quero ver o meu amigo
Quero ver o meu amigo

O vento me leva, o vento me arrasta
Vou ao seu encontro e isso me basta
Quero ver o meu amigo
Quero ver o meu amigo

Pesada é a saudade no meu coração
Vê-lo alimenta minha grande paixão
Quero ver o meu amigo
Quero ver o meu amigo


Que faço Senhor com esta amizade?
Morro de amor pesa-me a saudade
Quero ver o meu amigo
Quero ver o meu amigo


Deito-me no escuro, gemendo minha dor
Amarroto a noite, sinto frio, suor
Não vi hoje o meu amigo
Não vi hoje o meu amigo

Maria80

Música

Polonaise de Chopin, Madame Butterfly,Bolero de Ravel, Canoa de Carlos do Carmo (porque me recordo de Lisboa)

TV

Noticiários, Quadratura do círculo, Novelas

Natação

Adoro nadar, mas só em piscinas (especialmente a do Porto Moniz)

Blogosfera

Passatempo bestial. Obrigada “Gostava tanto dele”, que me apontou esta aventura.

Felicidade

Caras(os) colegas
Que fim de tarde maravilhosa! Oiço os melros a cantar na minha anoneira e leio felizes os comentários que me estão a ser enviados. Caro SIMÃOCIRENEU, você é muito elogioso; também terei muito gosto em contactar consigo e com todos, todos, todos. Um abração Maria80.


Oscar II

autor da foto: Joana Homem da Costa

Há já alguns anos que faço parte do Departamento dos Professores Reformados organizado pelo Sindicato de Professores da Madeira. São variadas as actividades, entre elas, aulas de leitura e escrita cujo programa consiste no estudo das obras dos nossos escritores clássicos e contemporâneos e também incutir nas alunas o gosto pela escrita. Passo a transcrever uma história que narra a chegada à minha casa, do Óscar, meu amigo cão

EU, ÓSCAR…

Arrancado do seio de minha mãe, deixaram-me atrás de um portão de ferro, cuja frieza me trespassou. Inconsolável, senti-me perdido num mundo desconhecido. Chorei, chorei, com saudades da minha progenitora; apareceu uma cadela negra que olhou para mim indiferente aos meus lamentos, e, como era surda, não soube consolar-me.

CORAÇÂO IMPIEDOSO

Meus ganidos desesperados chamaram a atenção das moradoras da casa onde tinha sido abandonado, vieram ao mau encontro e logo me senti beijado, olhado com ternura, várias mãos me afagaram, até que, consolado deixei de soluçar. Como prometeram acolher-me, aos poucos senti-me confiante.

CORAÇÕES GENEROSOS

Assisti pateticamente a uma troca de impressões sobre o nome que me deveria ser atribuído. Nabuco? Celso? Cognac? Óscar foi o escolhido.

CORAÇÕES ORGANIZADOS

Tenho três protectoras que adivinham meus desejos e me olham com amizade, mas sinto maior ternura e um certo paralelismo por aquela, que tal como eu, tem os cabelos pretos manchados de branco! Tenho-lhe tanto amor! Como me cuida! Até me serve as refeições na minha casinha, em dias de chuva.

CORAÇÃO GENTIL

O meu mundo visto cá do rés-do-chão é tão simples e tão tranquilo!
Tenho um quintal para vigiar, flores para estragar, gatos para amedrontar, de um modo especial o Melão, que lá por ser de raça pura, olha para mim, que sou rafeiro, com superioridade

CORAÇÃO ARROGANTE

Mas agora que estou instalado, desejo conhecer a vida dos colegas que me passam à porta. Arranjei um amigo com quem converso de quando em vez. Pergunto-lhe – aí pelas ruas, o que comes?
- Mal, responde-me ele, o que me aparece pelo caminho!
-Não tens um tacho onde comer? Questiono confrangido.
Há quem tenha tachos sempre cheios, mas em grande escala vagueiam por aí, muito desprotegidos, tristes com a sua pouca sorte!

CORAÇÕES INFELIZES

Continuo o diálogo – diz-me, conta-me, situa-me nesta terra, eu vivo num jardim, e vocês? Ah, a Madeira é um jardim imensurável… Jardim e mais jardim.

CORAÇÕES COLORIDOS

- Gostaria de passear contigo, mas a minha dona não me autoriza. Por onde gastas os teus dias?
- Passeio pela cidade vou ao cais, à marina, ao porto, gosto de ver descarregar os contentores. Ena! Tanta comida, faz-me crescer água no focinho, é pena não chegar para todos!

CORAÇÕES ESFAIMADOS

- Sabes, há dias saí de carro, fui ao veterinário com a minha dona, ela chamou um táxi grande, bestial, quando passávamos muita gente nos olhava.
- Ah, eu sei, conheço essa traquitana, é o carro do Sr. Leonel, um carro para transportar doentes em cadeiras de rodas, isso é uma anedota. Sabes lá o que são carros de luxo!
que andam por aí! Há alguns até com bandeirinhas a tremular ao vento. Têm todos os requisitos para dar conforto e bem-estar a quem neles viaja.
-Têm uma planta para se levantar a perna?
-És um idiota e não tenho mais paciência para aturar tanta ignorância, vou-me embora.

CORAÇÃO IMPACIENTE

Óscar pouco se preocupou com a partida do amigo, tinha tanta coisa a fazer, ladrar aos melros pretos que saltitam nas árvores, ladrar para a velha vizinha, só para a irritar e ouvi-la dizer em voz fanhosa:
-Cala-te, Óscar, que já me dói a cabeça!!!


“O cão faz ão ão é meu amigo como os que são”

Socorro Estou atrapalhada

tenho um texto no word e não sei transcrevê-lo para o meu blog Maria

Navegar


Que experiência!!! Uma nova porta que se abre! Sinto-me insegura neste mundo desconhecido a
explorar. Senhor, onde estás? Amo-te muito. Maria80

Agradecimento as colegas da Blogoesfera

Desde que vôo na blogosfera sinto-me muito acarinhada com tanta prova de amizade. A vida é bela e vale a pena viver mais, mais para estar em tão deliciosas companhias. Maria 80

Florbela Espanca


Boa amiga, para assinalar a vinda do seu neto, aqui vai um poema alusivo ao acontecimento escrito por Florbela Espanca:

DE JOELHOS

« Bendita seja a mãe que te gerou »
Bendito o leite que te fez crescer.
Bendito o berço aonde te embalou
A tua alma, p`ra te adormecer!

Bendita essa canção que acalentou
Da tua vida o doce alvorecer…
Bendita seja a lua que inundou
De luz, a terra, só para te ver…

Benditos sejam todos que te amarem,
As que em volta de ti ajoelharem
Numa grande paixão fervente e louca!

E se mais que eu, um dia, te quiser
Alguém, bendita seja essa mulher,
Bendito seja o beijo dessa boca!!

o Meu cão Oscar

Porque criei um blog


Para apresentar as pessoas e amigos as minhas Terezices espero que gostem e que comentem